Nas escolas que observei ao longo de dez anos de trabalho sob o prisma das relações e práticas que se estabelecem entre os sujeitos que, direta ou indiretamente, delas fazem parte, percebi a importância da construção de mecanismos de valorização, cujo funcionamento, na maioria das vezes, se dá no sentido do resgate de suas identidades. O olhar respeitoso do outro pode provocar uma série de mudanças nos comportamentos e atitudes dos jovens e dos professores, significando valorização e reconhecimento social.
A existência social se dá essencialmente pelo olhar do outro segundo pensadores da sociedade. Dessa forma, no que tange aos processos educacionais, essa premissa torna-se, particularmente, imprescindível.
Nesse contexto, um passo importante para a mudança ocorre no momento em que a direção possibilita a abertura do espaço escolar para os demais atores. A inovação passa por legitimação dessa direção junto aos alunos e aos professores, por meio de estratégias de valorização destas que, sem dúvida, são suas figuras mais importantes.
Participar ou não de experiências inovadoras ou de "projetos" desenvolvidos na escola parece vincular-se a uma complexidade de percepções - por vezes ambivalentes - evidenciadas pelos professores, que veem a si próprios como idealistas, amigos, "repassadores" de conhecimento, opressores e oprimidos, lidandocom alguns alunos que ora merecem investimentos afetivos, ora advertências.
A estratégia de "valorização" revela uma visão da escola que a considera para além de um lugar de aprendizagem, na medida que exerce funções de cuidado e atenção para com o outro, fato que repercute positivamente.
A valorização dos alunos se dá na medida em que a escola lhes dá ouvidos e considera as suas opiniões, criando mecanismos onde suas sugestões, referentes a mudanças que gostariam de ver implantadas, são analisadas, sendo suas decisões posteriormente socializadas.
No que se refere a valorização dos professores, muitos desses estabelecimentos têm investido em ações capazes de gerar um clima de satisfação entre eles, caracterizado por acolhimento, suporte e condições que para que desenvolvam um bom trabalho. Assim, o bom entrosamento, o coleguismo, a abertura e o incentivo a ideias novas tornam-se marcas importantes.
Uma fonte de motivação diz respeito aos aspectos "humanizadores" dos projetos desenvolvidos pela escola. Sentem-se recompensados pelos bons resultados obtidos pelos seus alunos nas provas "Provinha Brasil e "Exame Nacional do Ensino Médio", pelo fato de se afastarem das drogas e por alcançarem uma consciência cidadã.
Há, entre os professores, a consciência de que a profissão encontra-se socialmente desvalorizada e de que o salário que recebem não é digno. Assim, um modo de responder ao descaso governamental é justamente fazer um trabalho de bom nível. Os projetos, portanto, tornam-se formas de resistência e militância pela educação.
Outro fato constatado é o grande número de escolas centradas no desenvolvimento de ações que valorizem a promoção de uma identidade étnica, atentando ao exercício dos direitos culturais dos jovens. Assim, a pluralidade da sociedade é trabalhada a partir da incorporação de atividades capazes de refleti-la e refrata-la.
O exercício do diálogo entre alunos, professores e diretores assume um papel importante nas escolas inovadoras, tornando-se, possivelmente, instrumento político essencial a uma reestruturação de suas práticas cotidianas. A direção deveria abandonar a caráter centralizador que historicamente lhe foi atribuido e estabelecer relações de respeito e paridade com toda a comunidade escolar.
O diálogo cria a possibilidade de se estabelecerem relações de amizade entre alunos e professsores, alunos e gestores e, a mais importante, professores e gestores. Quando toda a comunidade escolar estiver envolvida em uma nova atitude de carinho e respeito, a educação conseguirá contribuir para a resignificação da imagem da sociedade que ela cria.